quinta-feira, 2 de setembro de 2010

LIBERATO

Ao se falar em travessias como nós o fizemos na postagem anterior, a primeira pessoa que nos vem à mente para configurar a natação em águas abertas como agora é chamada, é José Liberato de Matos. Treinava na Praia da Preguiça. Trabalhava num trapiche que ali existia – Trapiche Aliança - e na hora do almoço, ia de um lado para o outro naquele espaço. Às vezes derivava até o cais sul do Porto de Salvador. Depois ia almoçar. Aliás, nem sei se Liberato almoçava. Ele era diferente! Tinha muito de oriental em seu procedimento. Olho rasgado. Talvez tivesse uma descendência tibetana, por exemplo. Na época, era o único brasileiro com condições de fazer a travessia do Canal da Mancha. Mas foi tolido. Dentro dos conceitos médicos de então, tinha um coração grande. Tinha que tê-lo. Esse órgão é um músculo -tende a se desenvolver com os exercícios.

Liberato de Matos - Tinha uma resistência incomum

 No seu lugar, mandaram dois jovens nadadores, aliás, dois grandes nadadores de travessia, Valter Dunha da Silva e Elder Pompilho de Abreu, mas de travessias em águas tépidas. Sabem onde treinaram? Entre o Iate e o cais sul do Porto. Fizeram uma dieta apropriada para o corpo enfrentar uma água gélida de 13º entre Dover e Calais, durante 15 a 20 horas? Não fizeram! Eram obstinados? Não eram! Para fazer uma travessia como esta, tem que ser obstinado. Era o que sobrava em Liberato. Obstinação! Pouca gente sabe. Liberato fez uma travessia inimaginável para qualquer ser humano, pelo menos naquele tempo. Bom Jesús – Salvador. Sabem onde fica Bom Jesus? Depois de Francisco do Conde, lá perto de Santo Amaro da Purificação. A tentativa teve inicio à meia-noite. Coisa de doido! Rebocador da Marinha com o pessoal da Revista Náutica de Carlos Carneiro, patrocinadora do feito. O Professor Nunes como hipnotizador. Liberato tinha medo de tubarão. Tinha que ser sugestionado. Holofotes dirigidos para a ponte daquela cidade. Vez em quando a faixa de luz iluminava o céu. Um pequeno público olhava atônito para aquele cara que já estava n’água. A maioria, pescadores. Como é que pode nadar daqui a Salvador? Foi o que fez Liberato em mais de 12 horas de relógio. Depois ele cumpriu a travessia Ilha de Itaparica-Salvador com sucesso. Tudo isso visando atravessar o Canal da Mancha. Mas não deu! Seria o primeiro brasileiro a fazê-lo. Coube, então a Abílio Couto, um paulista, a façanha.

Liberato foi o primeiro campeão da Travessia Mar Grande-Salvador em 30 de janeiro de 1955 com o tempo de 3 horas e 50 minutos. Por uma dessas coincidências da vida, Liberato antes de atravessar o funil de chegada no Porto da Barra, tocou num rochedo ao lado do Iate Clube, onde nos encontrávamos assistindo a aproximação do nadador. Em seguida, dirigiu-se para o Porto.

Na época do feito, Liberato tinha 37 anos e 3 meses de idade. Em entrevista ao jornal afirmou que estava encerrando sua carreira de nadador. Tal não aconteceu. Já em março de 1956 pedia à Federação uma tentativa de recorde para a prova. Melhorou seu tempo, mas fora batido antes por Elder Pompilho de Abreu que também fez o mesmo pedido. Em seguida, como já vimos, participou das provas organizadas pela Revista Náutica de Carlos Carneiro.

Muitos anos depois, Liberato morreu pobre, numa palafita nos Alagados de Itapagipe. Pelo menos, morreu em cima do mar!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A ORIGEM DAS TRAVESSIAS Á NADO NA BAHIA

As travessias a nado na Bahia começaram em Itapagipe. Tinha que ser lá! Não havia nenhuma piscina na península. A juventude nadava no mar. Por outro lado, “havia” todos aqueles contornos peculiares ao local. Aquela beleza! O subúrbio ferroviário do outro lado era sempre um convite para chegar até ele, a nado. Penha-Plataforma-Penha, qual era o menino que não fazia o pequeno percurso? A volta da península! Em dia de maré cheia saia-se dos Tanheiros e nadava-se até a Avenida Beira Mar ou vice-versa. Aí a coisa foi aumentando. Os meninos se tornando rapazes e as meninas, moças bonitas e fortes. Um dia, uma delas, Ângela Maria de Carvalho, resolveu nadar da Praia de Inema, onde hoje o Presidente passa férias, até o Estaleiro do Bonfim. E o fez em nado de costas.Antes ela havia feito a Travessia Mar Grande Salvador. Foi a primeira mulher a fazê-lo. Diz-se que foi outra pessoa, mas não é verdade. Dois promissores nadadores, Valtinho e Elder, também saíram da mesma praia e foram até a Barra. Depois nadou-se de Periperi até a Avenida Beira Mar. Mas tarde, tornou-se uma prova sob o patrocínio do grande clube do subúrbio ferroviário que tinha na presidência o vereador Castelo Branco. Também Orlando Campos do Flamenguinho, o homem dos Trios Elétricos, também patrocinou a mesma travessia.

Vereador Castelo Branco

O interessante nisto tudo é que ninguém dava importância. O “ninguém” aí era a Federação desse esporte, a imprensa, os órgãos públicos, as empresas, ninguém! Quem dava as medalhas nas provas realizadas era o Senhor Chico, morador da Avenida Beira Mar. Tinha algum recurso e gostava de ver aquele movimento. Os nadadores chegando frente à sua casa onde se improvisava um funil de chegada. Hoje a coisa mudou! Estão considerando que as competições em águas abertas é um “retorno à natureza e está acompanhando a mudança filosófica que transformou o mundo com a preocupação dos aspectos ambientais e equilíbrio do homem com a natureza”. Muito bem! Naquele tempo já se fazia isto naturalmente. Acordava-se e nadava-se até o Estaleiro do Bonfim. Noutro dia, ia-se até a Penha e voltava. Lembramo-nos que Valtinho Acarajé quando queria se afastar das preocupações do seu restaurante no Poço começava a nadar por aí. Ia até o Cais do Porto e voltava. Depois ele veio a ser um dos campeões da Travessia Mar Grande-Salvador. Foi campeão também em Santos na Travessia Guarujá-São Vicente.


Valtinho é o quarto à esquerda - junto ao peixe

Abilio Couto

 Nesta prova, o grande Abílio Couto, recordista da Mancha, também participou. Valtinho nadou toda a manhã, a tarde toda e chegou a São Vicente no princípio da noite. A prova foi patrocinada pela Gazeta Esportiva de São Paulo. Também estivemos lá, levando um atleta – Edson da Conceição. Mas Edson tinha pavor ao frio. Informaram-nos que a água era boa, mas o frio chegou a Santos naqueles dias. Certa ocasião, fazendo a Travessia de Copacabana, temperatura ambiente de 40º saiu do mar enrijecido. Se continuasse, morria de hipotermia.
Na travessia de Guarujá-São Vicente o jornal patrocinou todas as despesas de transporte e hospedagem em hotel 5 Estrelas. Aconteceu algo inesperado. Marcada para determinado domingo, a prova não pôde ser realizada naquela data, em razão do mal tempo. Tranferiram-na para o domingo seguinte. Foi a maior das mordomias. Os baianos ficaram mais uma semana em Santos sob os cuidados do jornal e ainda trouxeram o troféu. A partir da segunda ou terceira travessia Mar Grande-Salvador, a prova eliminatória da mesma passou a ser realizada no percurso Periperi- Ponta da Penha. Os 20 melhores colocados poderiam participar da prova maior. Hoje fazem um circuito de provas classificatórias.
Também teve participação baiana na Travessia Ilha Bela-Caraguatatuba com Victor Celso Nogueira da Fonseca. Dominou a prova até poucos metros da praia, mas foi suplantado, também pelo frio. Os paulistas sempre foram muito bons em natação de mar aberto, haja vista que a maioria dos nadadores que atravessaram a Mancha é de São Paulo. São acostumados à água fria. O corpo se ambientaliza com o meio.
Como curiosidade, Batista Pereira, cidadão português, nadador em seu país e que teria nadado no Canal da Mancha, em visita à Bahia, resolveu nadar Encarnação na Ilha de Itaparica até Salvador. Procurou a imprensa e esta deu cobertura. Teve até rádio transmitindo a tentativa. Escolheu um domingo onde a maré estava de enchente na parte da manhã, turno escolhido por ele para o feito. E era dia de Lua Cheia. Imaginem! O homem ficou seis horas em frente ao Elevador Lacerda sem sair do lugar. Aliás, saía. Para trás. Desistiu! Comentou – “nem em seu País havia uma correnteza como aquela”. Parecia um rio descendo um declive rochoso.
Este é um fato pitoresco! Outro foi protagonizado por Parada, grande remador e uma pessoa extraordinária. Um grande gozador. Numa das travessias da Volta da Península, Parada inscreveu-se e comentou: “quero ver essa garotada enfrentar o Dique da Penha”. Mas, o que tem o dique para causar este pavor? Peixes! Muitos peixes! Perigosos! Ficam embaixo do dique. O comentário afastou alguns nadadores cujas mães ficaram preocupadas. Mais tarde se soube que os peixes que ficavam em baixo do Dique Araújo Pinho – este era o seu nome – eram pititingas e chicharros.
Adilson Braga foi um grande nadador de peito. Era do Vitória! Representou a seleção baiana em diversos Campeonatos Brasileiros. Certa ocasião inscreveu-se numa das travessias Periperi-Penha. Começou a prova nadando o estilo que lhe deu fama. Num determinado momento da prova, Adilson aparece na frente da prova. Muito na frente! O juiz da prova começou a estranhar aquela liderança. Nadando peito e com esta vantagem. Aí tem “maracutaia”! Chegou em primeiro lugar. O juiz da prova, antes de anunciar o resultado para a premiação, foi conversar com Adilson. Como você conseguiu este feito? Adilson respondeu aos risos – ninguém é mais rápido que o trem. Adilson havia nadado até Itacaranha. Pegou o trem nessa estação e saltou em Plataforma. Atravessou o Canal da Ribeira e chegou à Penha na frente de todo o mundo.
Outro fato que gerou muita polêmica na época foi o recorde batido por um nadador de nome Leandro, pertencente ao Vitória. O melhor tempo da prova era de 2 horas e 1 minuto, se não nos enganamos, pertencente à Norio Ohata de São Paulo. Leandro cravou 1 hora e 45 minutos, mais ou menos por aí. Era quase o tempo que os ferries-boats da época faziam o trecho Mar Grande-Água de Meninos.
O que aconteceu na realidade foi a trajetória de Leandro. Veio quase em linha reta e conseguiu chegar ao Porto com este tempo maravilhoso. Os demais nadadores, em todos os tempos, até então, se dirigiam em direção ao Elevador Lacerda aproveitando o fim da enchente e depois cambavam em direção à Barra. Fazia a prova em “>”. Quando Liberato nadou pela primeira vez, nadou inicialmente em direção ao Monte Serrat e depois se inclinou para a Barra. Fez o percurso em mais de quatro horas.


O percurso - Ilha de Itaparica-Salvador

O grande Liberato de Matos

EVOLUÇÃO TÉCNICA 4

CLUBE OLIMPICO DE NATAÇÃO

O Esporte Clube Bahia após cerca de 10 anos competindo em provas de natação de piscina e de águas abertas, extinguiu o seu Departamento de Natação. Em verdade, este clube ao se inscrever na Federação Baiana de Natação, pretendia ganhar o direito de obtenção de verbas junto ao Comitê Olímpico Brasileiro. Também inscrito na Federação Baiana de Atletismo e de outro esporte olímpico, possivelmente o voley ou o boxe, podia se candidatar às operações de crédito.
Vale salientar que se o grande clube baiano obteve qualquer verba através dessa providência, o destino verdadeiro da verba era o futebol profissional. Essa é que é a grande verdade. Diz-se que o clube investiu também na sua sede na Boca do Rio, aonde fez até uma piscina de 50 metros. Apesar disso, a sua equipe nunca treinou nessa piscina. Realizava seus treinos na piscina olímpica da Fonte Nova.
Quando o Bahia se afastou, surgiu o Clube Olímpico de Natação sob a direção de Walter Figueiredo. Ele soube aproveitar muito bem a ocasião. Qualquer pessoa faria isto! Decorria o ano de 1968.
Este clube funcionou até recentemente e, suspendeu suas atividades por dois anos, em razão da destruição das piscinas da Fonte Nova para construção de um novo estádio.
Em 42 anos de atividade, este clube fez grandes atletas. Desenvolveu a natação da Bahia e muitos dos seus nadadores foram campeões brasileiros. Foi uma etapa de grande progresso técnico.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

EVOLUÇÃO TÉCNICA 3

Até 1960 a Bahia participou de diversos Campeonatos Brasileiros de Natação, a maioria realizada no eixo Rio de Janeiro/São Paulo. Em todos eles não fez nenhum campeão, apesar do empenho de todos. Havia uma diferença técnica absolutamente visível. Na questão de estilo, não havia muita diferença. O problema residia no sistema de treinamento que se fazia em Salvador em relação ao que era feito no sul do País.
Praticamente, só existia um técnico de renome em nosso Estado, o senhor Aurino Almeida que treinava o Esporte Clube Vitória. Ao que se sabe, Aurino foi nadador no Rio de Janeiro, casou e veio morar em Salvador. Não era formado em Educação Física, apesar de lecionar natação no antigo Instituto Normal da Bahia, como professor licenciado.
Este senhor era um exímio “estilista”. Seus nadadores possuíam um estilo admirável de nadar. Lembramo-nos muito bem de Gilson Argolo, Antônio Batista, Tristão Nunes Menezes, Marilia Barreiros e tantos outros. Apesar disto, nenhum deles foi campeão brasileiro de piscina.
Quando o autor desse blog começou a dirigir a equipe do Clube de Natação e Regata São Salvador e, posteriormente, Esporte Clube da Bahia, rapidamente o domínio das competições locais foi tomado do Esporte Clube Vitória.
A pergunta que se faz é a seguinte: tínhamos mais conhecimento técnico que o senhor Aurino? Não. Não tínhamos! E porque do domínio? Força! Os nossos atletas tinham mais força que os atletas de Aurino. Nesse particular é sabido que o grande técnico do Vitória desenvolvia uma teoria que seu nadador não podia praticar outro esporte, por exemplo. Não podia ter músculos avantajados. Não podia fazer nada, senão nadar.
Já os nossos nadadores eram fortes de natureza. Jogavam bola. Pescavam. Faziam outros esportes, etc. Treinavam na praia. Os treinos dos nadadores do São Salvador eram feitos de manhã cedo, precedido de muita ginástica. Não deu outra. As vitórias foram surgindo, primeiramente nas competições infanto-juvenis e, posteriormente, também na de adultos.
O Aurino se afastou, recolhendo-se no Yacth Clube da Bahia que deixou de competir por longos 10 anos e ficamos nós, juntamente com Tavinho, a comandar a “nova” natação da Bahia. Ganhamos todas as provas, tanto de piscina como em águas abertas. Nestas últimas, nas eliminatórias da Travessia Mar Grande-Salvador, chegamos a classificar 19 nadadores em 20 para competir na grande prova.
Mas essa “nova” natação diminuiu a diferença técnica em relação à natação do sul do País? Não! Melhorou um porquinho. Já fazíamos um terceiro lugar, como foi o caso de Orlando Batista nos 100 metros peito com 1.12.8 e Neyde Gantois nos 100 metros, nado livre, com 1.15.00. As sulistas já faziam 1.05.00. Era muita diferença!


Neidinha Gantois

Tomamos uma providência. Tínhamos conhecimento que o Clube Paulistano de São Paulo havia contratado um técnico japonês, que pertenceu à Associação Cristã dos Moços de Tóquio. Seu nome? Igai. Entre outros nadadores treinava Norio Ohata que veio a ganhar por duas vezes consecutivas a Travessia Mar Grande Salvador. Fizemos contato com ele e acompanhamos seu treinamento por cerca de 20 dias em São Paulo. Norio veio a competir em Salvador, em razão de nossa aproximação com Igai. O convidamos para dar um curso em Salvador, curso este patrocinado pela Federação Baiana de Natação e Secretaria de Educação da Bahia. Um sucesso! Presente grande número de professores de Educação Física, técnicos locais e nadadores.
No ano seguinte, ainda como resultado de nossas freqüentes idas a São Paulo, tomamos conhecimento de um curso que seria realizado na Cidade de Rio Claro sob o patrocínio da Gazeta Esportiva e Federação Paulista de Natação. Inscrevemo-nos no referido curso. Acompanharam-nos Tristão Nunes Menezes que começava a treinar Rodrigo Liberato de Matos e Walter Dunha da Silva para travessias e o próprio Aurino Almeida, ainda no Esporte Clube Vitória. Tivemos um grande desempenho, ficando em segundo lugar na prova escrita, entre mais de 100 treinadores e professores de Educação Física de todo o Brasil. As conversas com Igai surtiram um excelente efeito. O curso teve como coordenador o Professor José Alves Sobrinho.
Entre os participantes desse curso, estava Antônio D’Renzo que, mais tarde, à nosso convite,veio dirigir a equipe de natação da Associação Atlética da Bahia. Já tínhamos deixado o Esporte Clube Bahia e éramos o Presidente da Federação Baiana de Natação.
Em postagem anterior, contamos o sucesso do treinamento de Rodrigo Liberato de Matos, segundo colocado nos 1500 metros nado livre, perdendo apenas para Tetsiu Okamoto, como também já nos referimos ao treinamento de Sônia Maria de Jesús, vencedora dos 400 metros nado livre na piscina do Vasco da Gama. Ambos os nadadores treinados dentro dos princípios do Interval Training ou Treinamento Intervalado, que Igai trouxe para o Brasil. Esses foram os primeiros resultados de uma nova concepção de treinamento.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

EVOLUÇÃO TÉCNICA – 2

Quando a equipe do São Salvador, treinada no mar, começou a disputar as provas de natação de piscina no Instituto Normal da Bahia, ganhou de primeira e ninguém tinha experiência de piscina. Nem sabiam dar volta, inclusive. Qual foi a razão disso? Força. Os atletas do Alviverde faziam muito ginástica, antes dos treinamentos na Avenida Beira Mar em Itapagipe. Eram forçados a fazer, devido ao frio. Os treinamentos começavam às 5 horas da manhã. Temperatura variava entre 19º e 22º.
Não se diga que, no princípio, era um conceito firmado (ginástica para obtenção de força) Era uma necessidade que depois foi percebida.
Esse fato representou a primeira grande evolução da natação baiana. Praticamente, todos os recordes infantis e juvenis foram batidos por seus nadadores.
Maravilhosa foi a sua equipe: Os irmãos Macedo, Zenice e Roberto, os irmãos Gantois, Josenar, Cleber e Neide, os irmãos Vieira Lopes, Denise, Antônio Carlos e Luiz, as irmãs Magalhães, Lucinha e Silvinha, Silvia, Lindaurinha, Afonsinho Rodamilans, Joir Pitangueira, Hélio Moncorvo, Noildo, Tutu, irmão de Waltinho Acarajé, Alaim, Motorzinho, Luiz Baldini, Edson Conceição, Walter Grave, Carlos Mamede, Lito, Odilma e tantos outros que a memória não deixa lembrar na plenitude de sua força.



A linda e forte equipe feminina do São Salvador (Zenice, Denize, Lindaurinha, Silvia, Neide e Odilma. (1954)

Muitos desses nadadores passaram para a equipe do Esporte Clube Bahia, quando se extinguiu o departamento de natação do São Salvador.
Outra evolução da natação se deu com a introdução do “interval-training” – método de treinamento – no meio da natação da Bahia. Tem muitos “precursores” dessa introdução, mas chegou a hora de contar a verdade.
Em São Paulo, os clubes Paulistano e Pinheiro, contrataram quase ao mesmo tempo, dois técnicos japoneses que pertenciam à Associação Cristã de Moços de Tóquio: Igai pelo primeiro e Hirano pelo segundo.


Manoel dos Santos com o pai e o técnico Hirano


Manoel dos Santos e Jonhny Weismuller

Hirano veio a treinar mais tarde o nadador brasileiro Manoel dos Santos que, na piscina do Guanabara no Rio de Janeiro, em tentativa de recorde solicitada à Federação Internacional, bateu o recorde mundial dos 100 metros nado livre com o tempo de 53.6 com passagem nos 50 metros em 25s6. Dia memorável para a natação brasileira: 20 de setembro de 1961.

Uma das etapas do treinamento de dos Santos foi realizada em Salvador.


Enquanto isto, Rodrigo Liberato de Matos, sobrinho de Liberato, havia ganhado a sua primeira Travessia Mar Grande Salvador. Era um nadador excepcional! Só não tinha força e era treinado dentro dos princípios técnicos até então conhecidos. Naquele ano, aí pelos idos de 1953/55, a Bahia participaria do Campeonato Brasileiro de Natação na piscina do Vasco da Gama. Resolvemos preparar Rodrigo para esta prova. Juntamente com Tristão Nunes Menezes que era treinador de nadadores de natação de águas abertas – travessias – e Dr. Ângelo Decânio, famoso médico e grande desportista, fizemos seu treinamento com base no “interval-traning”. Faltavam cerca de 5 meses para a competição. Resultado: Rodrigo foi vice-campeão da prova. Perdeu por batida de mão. Sabem que foi o campeão da prova? Okamoto. Sim! Tetsuo Okamoto, medalha de bronze nas últimas Olimpíadas daquela época.
Também realizamos um trabalho de interval-training com Sônia Maria de Jesus, visando um determinado Campeonato Brasileiro ainda na piscina do Vasco da Gama. Ao final, Sônia foi campeã dos 400 metros nado livre e vice nos 100 metros, livre, batendo o recorde baiano. Em razão desses dois resultados, Sônia foi convocada pela Confederação para integrar a equipe brasileira que disputaria o Campeonato Sul-Americano. Tornou-se campeã sul-americana nos 4x100 metros, nado livre.
O mesmo fizemos com Orlando Aragão, grande nadador de peito. Foi terceiro colocado com o tempo de 1.12.8 em um Campeonato Brasileiro. Nos 50 metros bateu na frente com o melhor tempo de 50 metros então existente no Brasil. A parte de ginástica de Orlando foi feita em academia com vistas a fortalecer principalmente as pernas.
Ainda com o mesmo nadador, introduzimos a nova maneira de nadar o peito com sincronização inovadora e pernada fechada, abrindo apenas as partes inferiores das pernas.
À frente do Esporte Clube Bahia que havia criado seu Departamento de Natação, fomos campeões durante longos 10 anos, ininterruptamente. Nesse período foram desenvolvidos os melhores nadadores da quela década, tanto em natação de piscina quanto de águas abertas: Nelson Nogueira da Fonseca,o Jacaré, (falecido)Victor e Ana, seus irmãos; Itamar, os irmãos Gantois, Cleber (falecido) e Neide; Miguel Argeu, o grande nadador de 200 metros peito; Edmaio Cairo (falecido) em nado de costas; a própria Sonia, o próprio Orlando e sua esposa Maria, também grande nadadora de peito. Lito, campeão da Travessia Mar Grande Salvador. Afonsinho, Hermenésia, Joildo, os irmãos Fleubory, os irmãos Welsuffi, Walter e Graça ,os irmãos Tanajura, José Carlos, Vera e Tânia, Roberto Macedo, Lázáro Guimarães, Bebeto, Welton, ar irmãos do Carmo, Wilma e Maria São tantos, uns lembrados outros imperdoavelmente esquecidos. Faz muitos anos! Todos são os verdadeiros responsáveis pela evolução da natação baiana.
Nota : À medida que os meus nadadores acessarem este blog e, se por acaso, o seu nome não esteja aqui incluído e o queira, favor entrar em contato conosco. Inclua o telefone ou e-mail. Será um grande prazer falar com vocês.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

TAVINHO



Antes do advento da Federação Bahiana de Natação – sempre com h – a exceção de Aurino Almeida, os demais técnicos eram pessoas curiosas e dedicadas que dirigiam as equipes dos clubes que participavam das competições de natação patrocinadas pela Federação Baiana dos Clubes de Regatas da Bahia: Vitória, São Salvador, Santa Cruz, Itapagipe e Iate.
Eram os casos de Walter Gonçalves e Manoel Gantois. Grandes abnegados! A essa altura Tavinho – Otávio de Oliveira Dantas - iniciava-se como técnico.

Começou sua trajetória na natação como nadador. Pertencia à equipe do São Salvador. Um belo dia, Tavinho conheceu por acaso Walter Gonçalves, pai de Mary Gonçalves, campeã sul-americana de natação. O encontro aconteceu na loja que o pai de Tavinho possuía junto ao Elevador Lacerda, parte de baixo, onde hoje é uma padaria. Chamava-se “A Floricultura”. Walter tinha vindo de São Paulo ainda sem a família, e procurava um imóvel para instalar uma fábrica de saltos de sapato feminino. Deu na Floricultura. Lugar central. Por perto tinham muitos prédios antigos que poderiam servir para a sua futura indústria. Conheceu Tavinho. Em verdade, Tavinho não trabalhava com o pai. Fazia corretagem de imóveis. Walter além do imóvel para sua fábrica precisava de uma boa residência, dentro dos padrões que tinha em São Paulo. Tavinho lembrou-se da casa dos Maias na Rua Democrata, no alto do morro da Preguiça. Os Maias eram remadores do Santa Cruz, aliás, grandes remadores. Eram proprietários de uma casa comercial denominada Casas Maia, especializada em tecidos. Levou Walter à presença dos dois comerciantes e esportistas. Fecharam negócio. A casa passou a pertencer a Walter Gonçalves. Faltava o local para a indústria. Tinha que ser perto da nova residência. Tavinho localizou um imóvel na subida da Ladeira da Preguiça, há poucos metros da Rua Democrata.
Quando a família veio para Salvador, Mary precisa treinar em algum lugar. Ainda estava em atividade esportiva pelo Clube de Regatas Tietê de São Paulo. Em dias de competição, pegava um avião e participava dos campeonatos paulistas de natação. Walter não era sócio do Yacht Clube da Bahia que possuía a única piscina de clube de Salvador. Mary então treinava na Praia da Preguiça, que é uma piscina natural, tão boa quanto a Praia do Porto na Barra. Tavinho acompanhava o treinamento da grande nadadora. Nesse ínterim Mary e o pai resolveram não mais participar dos campeonatos de São Paulo. Era muito desgastante. Ter que viajar a toda hora. Já estava influenciando no rendimento técnico. Optaram por se filiar a um clube local. Escolheram o Clube de Natação e Regata São Salvador. Tavinho iria formar uma equipe para o alviverde da Ribeira. E os outros nadadores? Tavinho não teve dúvidas: os meninos da Preguiça. E aí surgiram os Aragãos, antecessores de Orlando Aragão, grande nadador de peito no futuro, de Sônia Maria de Jesus, que veio a ser como Mary, também campeã sul-americana, de Edson da Conceição, excepcional nadador de provas de meio fundo e ficou famoso mais tarde, como compositor de grandes músicas. Sua história será contada mais adiante. E aí Tavinho não mais parou. Quando o Salvador deixou a natação, Tavinho foi para o Esporte Clube Bahia junto com o autor dessas linhas. Era um descobridor de atletas de natação. Ninguém resistia aos seus convites. Encerrou sua carreira como professor de natação no Yacth Clube da Bahia, aonde era muito querido. Está aposentado. Obrigado a ficar em casa por questões de saúde, mas de vez em quando fugia lá do Tororó onde mora e se mandava para o Yacth Clube. Passava tardes inteiras revendo seus alunos do passado, hoje médicos, engenheiros, advogados, empresários. Não há ninguém nessa Bahia e nesse Brasil que não goste de Tavinho. De vez em quando Tavinho variava as fugidas. Em vez do Yacth, Tavinho ia para Itapagipe, aonde se encontrava com Roberto Macedo que foi seu nadador. Roberto foi, por algum tempo, professor de natação do Clube de Regatas Itapagipe, antes do seu fechamento. Passavam tardes inteiras conversando. A família preocupada ligava para o Yacth. Tavinho não estava, claro! Lembrava-se de Roberto. Deve estar com ele. Liga para o celular dele e Roberto vinha trazer em casa o grande amigo e seu ex-professor. O mesmo fazia o Yacht Clube quando era a sua vez. Chamava um táxi e mandava levar Tavinho para sua residência. Gesto bonito, há de se reconhecer. Hoje Tavinho não mais aparece. “Prenderam-no” em casa. Deve está sofrendo. Ele precisa de comunicação, de ver seus ex-nadadores, de “ouvi-los” sem escutá-los, apenas com os olhos e o coração.

EVOLUÇÃO TÉCNICA - 1


Renato Moura Costa - Jogador de basquete e grande nadador

O recorde baiano de natação dos 100 metros nado livre, homens, nos primeiros anos da Federação Bahiana de Natação (com H) era de 1’05”,00, pertencente à Renato Moura Costa, nadador do Clube de Regatas Itapagipe. Decorria o ano de 1953. Renato foi um grande jogador de basquete, tendo formado com seus irmãos Nilton, Vavá e Gilberto, mais Lagartixa, um primo, um dos maiores times desse esporte na Bahia. Também nadava, daí o seu recorde. Aliás, quem não nadava em Itapagipe?
Hoje o recorde dessa modalidade pertence a Edvaldo Valério Silva Filho com 48.54, por sinal uma grande marca.
Com isto queremos demonstrar a evolução técnica da natação daqueles tempos em relação à de hoje.
À nível mundial aconteceu a mesma coisa। Tomemos como exemplo os mesmos 100 metros, nado livro, homens. Em 1924, o recorde mundial foi de 59” de Johnny Weismuller que, mais tarde veio a se tornar o Tarzan nos cinemas.

Johnny Weismuller
Hoje, o recorde mundial pertence a um brasileiro, Ciello, com a marca de 46”,91 – 30/7/2009

Essa evolução deu-se por um conjunto de fatores, desde o aperfeiçoamento dos estilos aos métodos de treinamento e força. Sim! Os nadadores de hoje têm mais força que os de antigamente, inclusive são mais saudáveis.